sábado, 5 de maio de 2018

"A vida é um pretexto para escrever dois ou três versos sonoros e luminosos", escreveu Alexander Block



O que importa
é estar vivo
e entrar em casa
no desolado meio-dia da vida.

O rio passa varrendo a rua poeirenta,
os satélites artificiais podem girar em volta da Terra,
mas os bois apostos aos carros nada sabem deles.

É o mesmo de outro século o gesto do agricultor
ao descarregar um saco de trigo,
a poalha da moenga dança no sol sem memória,
ouvem-se os ratos a correr por entre os sacos
adormecidos na adega
e o oculto resplendor das coisas
tem um segredo revelado pelas acácias.

Ouço o apito do comboio
cortando o povoado em dois.
Onde eu pedi três desejos ao comer as primeiras cerejas,
onde me deram uma lâmpada humilde que não voltei a achar,
uma vila com poucos milhares de habitantes quando eu nasci
e fundado inicialmente como Forte
para defesa contra os mapuches
(era assim como o nosso Faroeste).
A vila onde mantas ainda fumegam junto de fogões a lenha,
e o inverno é como que travessia de um tormentoso oceano.

Se me pedissem para lembrar
algo para além das ruas onde dei os primeiros passos
não teria muito para dizer.

Estive, creio, em outros países,
vi dia a dia nas cidades veículos iluminados
como transatlânticos
levar rostos fatigados de um matadouro para outro.

"A vida é um pretexto para escrever dois ou três versos
sonoros e luminosos", escreveu Alexander Block,
mas talvez eu não seja um verdadeiro poeta.

Amo-me a mim mesmo tanto como ao próximo,
mas estou pronto a desaparecer junto com ele.
Posso mesmo rezar sem acreditar em Deus.
Às notícias do dia costumo preferir
memórias de obscuras personagens de outras épocas
ou ver os pardais a bicar maravilhas.
De novo alguém vê as ervas
ao vento espalhando seu oiro.

Alguém vai temer de manhã que o sol não regresse,
alguém aprenderá a ler em jornais
que anunciam novas guerras,
alguém pela noite
vai pegar numa brasa para fazer círculos de fogo
para se proteger de todo o mal.

Ficarei sozinho no meio do pinhal.

E verei de repente erguerem-se os muros ao canto dos galos.
Poderei dizer meu nome verdadeiro,
e as portas do bosque se abrirão,
sendo meu espaço o mesmo das aves imortais
que nele entram e saem,
e os irmãos desconhecidos saberão que já podem suceder-me.

Tenho de enfrentar o rio de novo,
preparo uma moeda.
Mudou de cor o rio.
Sem temor vejo
a canoa negra, à espera, na margem.

JORGE TEILLIER

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