domingo, 7 de janeiro de 2018

STEREODOX: Cada dia sonho mais devagar






Não serei eu
a matar a última formiga,
a tornar a vida impecável,
a reflectir a luz nas paredes.

Não serei eu
a mulher feliz cercada de países azulejo.
Não tenho o discurso na voz
nem sou a mão que o escreve.

Serão outros,
filhos de meus filhos.

Herdarão o chão sobre o chão,
herdarão os pés,
os passos
e os olhos perplexos
do miúdo que parte os brinquedos.

Cada dia sonho mais devagar,
consagro horas e minutos
a buscar o limite das coisas,
a esquina onde começa e termina
a cortesia da mentira.

SILVIA NIEVA
La fabrica de hielo
Canalla Ediciones (2014)

[Apología de la luz]
(Trad. A.M. / Blog Rua das Pretas)

[diz MADAME DU CHÂTELET]
Enfim, digo que para sermos felizes temos de ser susceptíveis de ter ilusão, o que nem precisa de ser provado; mas dir-me-eis, haveis dito que o erro é sempre nocivo: a ilusão não será um erro? Não: a ilusão não nos faz ver completamente, em toda a verdade, os objectos como eles devem ser para nos proporcionarem sentimentos agradáveis, ela acomoda-os à nossa natureza. Assim são as ilusões de óptica: ora, a óptica não nos engana, embora não nos faça ver os objectos tal como são, porque ela no-los dá a ver de maneira que devemos vê-los para nossa utilidade. Por que razão mais do que ninguém nas marionetas, se não pelo facto de que me presto, mais do que ninguém, à ilusão, e porque ao fim de um quarto de hora acredito que é Polichinelo quem está a falar? Teríeis um instante de prazer com a comédia se não vos prestásseis à ilusão que vos faz ver personagens que sabeis mortas há muito e que as faz falar em versos alexandrinos? Mas que prazer teríamos com outro espectáculo onde tudo é ilusão, se não soubéssemos prestar-nos a isso? Teríamos certamente muito a perder e aqueles que, na ópera, não têm outro prazer senão o da música e das danças têm com ela um prazer muito insípido e bem aquém daquele que o conjunto deste espectáculo encantador proporciona. Citei os espectáculos porque a ilusão é aí mais fácil de sentir. Ela faz parte de todos os prazeres da nossa vida e constitui o seu sal. Dir-se-á, talvez, que ela não depende de nós e isso só é verdade até um certo ponto; não podemos dar-nos ilusões, da mesma maneira que não podemos dar-nos gostos nem paixões; mas podemos conservar as ilusões que temos; podemos não tentar destruí-las; podemos não ir aos bastidores ver as engrenagens que fazem os voos e as outras máquinas: é toda esta arte que podemos pôr na ilusão e esta arte não é inútil nem infrutífera.
(excerto do ‘Discurso sobre a Felicidade’, tradução de Maria João Costa Pereira, Relógio D'Água, 2004 / original datado, provavelmente, de 1747) (via RUI ALMEIDA)

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