terça-feira, 24 de abril de 2018

/ o luar vago dos candeeiros /


O relógio que está para trás, na casa deserta, porque todos dormem, deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jaz na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho. Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.
Tudo em meu torno é o universo nu, abstracto, feito de negações nocturnas. Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafísico do mistério das coisas. Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espectáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!... Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!... Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento — tudo que não fosse a vida...
E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece — não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me a vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.
Com que luxúria (...) e transcendente eu, às vezes, passeando de noite nas ruas da cidade, e fitando, de dentro da alma, as linhas dos edifícios, as diferenças das construções, as minuciosidades da sua arquitectura, a luz em algumas janelas, os vasos com plantas jazendo enjauladas nas sacadas — contemplando tudo isto, dizia, com que gozo de intuição que subia aos lábios da consciência este grito de redenção: mas nada disto é real!
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
  - 99.

domingo, 22 de abril de 2018

Promenade @ Lisbon [1668-2018]

via Livraria Trindade

Lisboa

Cidade branca 
semeada 
de pedras 

Cidade azul 
semeada 
de céu 

Cidade negra 
como um beco 

Cidade desabitada 
como um armazém 

Cidade lilás 
semeada 
de jacarandás 
Cidade dourada 

semeada 
de igrejas 

Cidade prateada 
semeada 
de Tejo 

Cidade que se degrada 
cidade que acaba 

Adília Lopes, in 'Poemas Novos' 

Primavera Proverbial.

( graças ao Stephen Colbert ) 
comecei a ver uma série melómana, tragicómica e novelesca. 
de seu nome

Big Little Lies (2014-)
(de David E. Kelley a partir de Liane Moriarty)
realização de Jean-Marc Vallée



sábado, 21 de abril de 2018

''Poetry gives him nothing that he couldn't find in a woman's smile.''

Lured, Douglas Sirk, 1947




sexta-feira, 20 de abril de 2018

STEREODOX: Senhor Som

FRICTIONAL NEVADA - Venetian Snares

''the strand of your black hair / has become my horizon''

Farewell to the ark, Shuji Terayama, 1984


quinta-feira, 19 de abril de 2018

– Abrir a favor do vento.  



Yvonne Rainer

TAXISTA   
Ensinou-me hoje um taxista
que por vezes basta abrir
a janela do carro
– Para quê?
abrir os olhos contra o vento
não, foi a favor
– Abrir a favor do vento.   
João Moura

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Chacun Son Lit (ou pas de tout)

O Coração Fantasma, Philippe Garrel, 1995

I've been thinking about this (kinda)


Por aqui, teve de acabar (com o fim da componente curricular deste 1º semestre de 2º ano de doutoramento) a investigação escrita a que me dediquei desde o início do ano lectivo ~ mas persiste a vontade de continuar a trabalhar os temas que, ao de leve, abri. Fica a certeza de que o trabalho é um universo a que devemos dedicar uma reflexão restruturante. E se esta pesquisa --- motivada por auto-análise e relacionada com o meu interesse por cinema colectivo --- não tem directamente a ver com o desenvolvimento da minha tese (Fotografia & Memória na Guerra Colonial), tem tudo a ver com guerra: a relação humana com o trabalho é uma das mais antigas questões e, com as aceleradas modificações nas estruturas de produção, uma das mais actuais:

CAP.1 / PARA UMA DEFINIÇÃO DE CINEMA POLÍTICO
CAP.2 / A RAÍZ MILITANTE DO CINEMA
CAP.3 / TRABALHO E AUTOMAÇÃO
CAP.4 / PARA UM ESBOÇO DO OPERÁRIO E DO TRABALHADOR
CAP.5 / OPERÁRIO, IDEOLOGIA E CINEMA
CAP. 6 / O AUTO-EXAME E A CONSCIÊNCIA DE CLASSE
CAP. 7 / ‘CINEMA-OUVRIER’
CAP. 8 / A ESTRUTURA COLECTIVA DO CINEMA
CAP. 9 / CINEMA COLECTIVO NO SÉCULO XX
CAP. 10 / CINEMA COLECTIVO NO SÉCULO XXI
CAP. 11 / DESEMPREGO E DESTITUIÇÃO DE SI
CAP. 12 / CONTRA UMA SOCIEDADE COM O TRABALHO NO CENTRO
CAP. 13 / EMPREGO E AUTO-IMAGEM
CAP. 14 / CONTEMPORANEIDADE: DESEMPREGO E VIOLÊNCIA
CAP. 15 / SOBRE-PRODUÇÃO E SOBRE-CONSUMO
CAP. 16 / O VÍNCULO ECONÓMICO E FINANCEIRO AO TRABALHO
CAP. 17 / INDIVIDUALISMO NA MEDIAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS
CAP. 18 /  DESAPOSSAMENTO DE SI
CAP. 19 / DESVALORIZAÇÃO DO TEMPO HUMANO
CAP. 20 / A PERDA DA ‘JOIE DE VIVRE’

{ Au fond a quoi sert le travail avant tout?

terça-feira, 17 de abril de 2018

Maio 2018 na Cinemateca


segunda-feira, 16 de abril de 2018

''Seule notre capacité à faire naitre un autre monde peut nous sauver.'' Paul Ariès


''Escraviza-nos à ideia de que através do trabalho é que nos construímos, é que somos humanos''

O TRABALHO LIBERTA?, Edgar Pêra, 1992



''repleto do eco das grandes acções cívicas''

A Noite dos Proletários, Jacques Rancière

Pantomima Popular

A Noite dos Proletários, Jacques Rancière

domingo, 15 de abril de 2018

''Se na estética se aplica a mesma inflação que mantém viva a sociedade capitalista, o mundo em que vivemos não vale a pena''

Crítica da Separação, Guy Débord, 1961


JMS: O filme militante confina as pessoas à urgência. E na urgência estamos, a culminação do sistema que inventou as câmaras de gás. (…) Esta ideia poderia servir de definição para o cinema político: evitar a todo custo o que mantém com vida o capitalismo, a inflação. Se na estética se aplica a mesma inflação que mantém viva a sociedade capitalista, o mundo em que vivemos não vale a pena, continuamos a deitar água ao moinho. (…)
DH: Nós, como pessoas, reagimos forçosamente às circunstâncias, mas isso não é motivo suficiente para plasmar as reações individuais em um filme. Para isso estão as histórias sentimentais.

Danièle Huillet e Jean-Marie Straub em entrevista a François Albera, 2001

sábado, 14 de abril de 2018

''à descoberta do sentido''

diz o GRUPO KRISIS:

Quem, hoje em dia perguntar a si próprio qual o conteúdo, o sentido ou a finalidade do seu trabalho, enlouquece – ou torna-se factor de perturbação do funcionamento autotélico da máquina social. O ‘homo faber’, outrora orgulhoso do seu trabalho, e que, ao seu modo limitado, ainda levava a sério o que fazia, está hoje tão fora de moda como uma máquina de escrever. A engrenagem social tem de continuar a funcionar a qualquer preço, e ponto final. Quanto à descoberta do sentido, para isso existem os departamentos de publicidade, exércitos inteiros de animadores e de psicólogas de empresa, os consultores de imagem e os «dealers» da droga. Quando se propagandeia interminavelmente o lema da motivação e da criatividade, é certo e sabido que de uma e da outra já nada sobra…, a não ser enquanto auto-engano. É por isso que hoje as capacidades de auto-sugestão, de autopromoção e de simulação de competências se contam entre as virtudes mais importantes dos gestores e das trabalhadoras especializadas, das estrelas dos ‘media’ e dos contabilistas, das professoras e dos arrumadores de automóveis.
(excerto de ‘Contra o Trabalho’, tradução de José Paulo Vaz, 2.ª ed.: Antígona, 2017)

enquanto mudo e não mudo

muito me vai salvando
(...)


TIMES SQUARE, NEW YORK CITY, Christian Montone (1963)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

''Tanto vão, tanto ruído''

Simone Weil - Reflexões Sobre As Causas da Liberdade e da Opressão Social
(Antígona)

quinta-feira, 12 de abril de 2018

JLG is back, tell a friend.


neste ofício desolado / de elevar torres sem andaimes


Sonhamos com um leitor perfeito.
Superior a nós.
Melhor ainda do que a própria leitura
de nós mesmos.

Para ele escrevemos,
mesmo que não exista.
Não podemos deixar de sentir
que se esconde por trás desse silêncio
que arrasta as palavras
como uma túnica partida.

Talvez ao persistirmos
neste ofício desolado
de elevar torres sem andaimes
o leitor que não existe
desperte nalgum momento
lá onde o leitor
já não é necessário,
porque afinal toda a leitura se lê só.
Roberto Juarroz
(Tradução de Arnaldo Saraiva)
in Poesia Vertical, Campo de Letras, Porto, Junho de 1998.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

''Achievement of your happiness is the only moral purpose of your life...

and that happiness, not pain or mindless self-indulgence, is the proof of your moral integrity, since it is the proof and the result of your loyalty to the achievement of your values.''
 Ayn Rand


Oito Oito, Edgar Pêra, 2001

terça-feira, 10 de abril de 2018

às vezes


Yaacov Kaufman: Running in Circles

às vezes acho que sei fazer
às vezes acho que faço
às vezes acho que já fiz
às vezes acho que não sei fazer
às vezes acho que não vale a pena fazer
às vezes acho que toda a gente sabe fazer 
às vezes acho que nunca hei-de saber fazer
às vezes acho que fiz sem querer
às vezes acho que farei
às vezes acho que saberia fazer mas não faço
às vezes acho que faço como os que sabem fazer
às vezes acho que já está feito

10.04.2018